A Assunção Literária Apresenta: O Enigma Começa em King's Abbot
Bem-vindos ao A_Assunção_Literária, o seu novo espaço para desbravar as mais fascinantes tramas e desvendar os segredos que se escondem nas páginas dos livros! Para dar o pontapé inicial em nossa jornada, mergulharemos em um dos mistérios mais icônicos e surpreendentes da rainha do crime, Agatha Christie: "O Assassinato de Roger Ackroyd".
O Assassinato de Roger Ackroyd, escrito por Agatha Christie em 1926, é considerado um dos clássicos da literatura policial. Nesta resenha, vou apresentar minha análise sobre a obra, sua importância dentro do gênero de mistério e porque ela continua fascinando leitores até hoje.
Preparamos uma análise especial do capítulo de abertura, onde a atmosfera de uma pacata vila inglesa esconde um prelúdio sombrio.
O Primeiro Ato: Uma Vila de Aparências e Segredos
Agatha Christie tem um talento ímpar para nos transportar para cenários que, à primeira vista, parecem idílicos, mas que guardam consigo uma corrente subterrânea de tensão. Em "O Assassinato de Roger Ackroyd", somos apresentados à charmosa e aparentemente tranquila vila de King's Abbot. Através dos olhos do Dr. Sheppard, nosso narrador (e, como descobriremos, muito mais), somos apresentados aos seus habitantes e à sua rotina.
A narrativa se inicia de forma quase amena, com o Dr. Sheppard nos contando sobre sua vida e seus passatempos. No entanto, já sentimos que algo está se configurando. A descrição do próprio Roger Ackroyd, o abastado empresário, e a forma como ele se prepara para um evento crucial – a chegada de sua noiva, Caroline – já plantam as sementes de uma história que está prestes a desmoronar.
Aqui, o primeiro capítulo completo para você reviver ou descobrir:
CAPÍTULO I
ENQUANTO O DR. SHEPPARD ALMOÇA Mrs.Ferrars morreu na noite de quinta-feira, de 16 para 17 de setembro. Foram chamar-me às
oito horas da manhã de sexta-feira, 17. Nada havia a fazer; estava morta havia algumas horas.
Quando voltei para casa, passava das nove. Abri a porta da entrada com a chave e permaneci
alguns instantes, propositadamente, no vestl'bulo, para pendurar o chapéu e o sobretudo de meia
estação que julgara conveniente levar, para proteger-me do frio incipiente daquela manhã
outonal. Para dizer a verdade, sentia-me perturbado, mal-humorado. Não pretendo dizer, com
isto, que previsse os acontecimentos que iriam desenrolar-se pouco depois; devo declarar,
mesmo, que não tive qualquer sensação definida. O meu instinto, entretanto, pressentia que
estava para acontecer alguma coisa emocionante.
Da sala de jantar, à esquerda, chegava o tinido de copos e de louça e o tossir de minha irmã
Caroline.
- És tu, Jacques? - perguntou.
Pergunta inteiramente inútil; quem havia de ser?
Era minha irmã a causa daquela demora na antecâmara.
Conta Kipling que o lema das doninhas na Índia é: Corre e descobre.
Se tivesse de aconselhar Caroline a adoptar uma divisa, seria, sem dúvida, esta, com uma
doninha rampante; mas sem a primeira parte: Caroline consegue realizar qualquer investigação,
permanecendo tranquilamente em casa. Não sei como o faz, sei, porém, que o consegue sempre.
Tenho uma vaga desconfiança de que a criadagem e os fornecedores constituem as suas fontes de
informações.
Quando sai, não é para colher notícias, mas para difundi-las; e também nisto se
revela de uma perícia admirável.
Era precisamente essa última particularidade do seu carácter que me mantinha suspenso num
estado de viva incerteza. O que quer que eu dissesse a propósito da morte de Mrs. Ferrars, tinha a
certeza de que, dentro de hora e meia, o máximo, seria conhecido em toda a região. Na minha
qualidade de médico, dou, naturalmente, valor à discrição; por isso contraí o hábito de ocultar de
minha irmã qualquer notícia, pelo menos até onde me for possível. É verdade que ela chega a
saber tudo, igualmente, mas tenho pelo menos a satisfação moral de dizer que não foi por mim
que o soube.
O marido de Mrs. Ferrars morrera havia pouco mais de um ano, e Caroline sempre sustentara,
embora a sua convicção não tivesse o mínimo fundamento real, que a esposa o envenenara.
Recusava-se, desdenhosamente, a aceitar a minha invariável declaração de que Ferrars morrera
de gastrenterite aguda, agravada pelo abuso constante de bebidas alcoólicas. Concordávamos em
que os sintomas da gastrenterite e os do envenenamento arsenical se assemelham, mas minha
irmã alicerçava as suas acusações em argumentos bem diversos.
- Não precisas mais do que fitar-lhe o rosto
- Disse certa vez.
Mrs. Ferrars, embora não muito jovem, era formosa e os seus vestidos, mesmo feitos com
simplicidade, assentavam-lhe sempre admiravelmente; mas há uma quantidade de senhoras que
compram os seus trajos em Paris sem por isso sentirem a necessidade de envenenarem os
maridos.
Enquanto permanecia indeciso na antecâmara, revolvendo na mente estas circunstâncias,
ouviu-se a voz de Caroline, desta vez um tanto aborrecida:
- Que estás aí a fazer, Jacques? Porque não vens almoçar?
- Já vou - apressei-me a responder. - Estava a pendurar o sobretudo.
- A esta hora, já tinhas tempo de pendurar meia dúzia.
Pura verdade: não podia deixar de conceder-lhe razão. Entrei na sala de jantar e, depois de
dar-lhe a habitual palmadinha no rosto, sentei-me diante do prato de ovos com toucinho que
estava na mesa. O toucinho já estava frio.
- Tiveste de fazer uma visita muito cedo, esta manhã
- observou Caroline.
- Sim - respondi.
- A Mistress Ferrars, na Quinta do Rei.
- Já sei.
- Como soubeste?
- Foi Anny quem me contou.
Anny é a criada. Jovem simpática, mas tagarela impenitente.
Houve uma pausa, durante a qual continuei o meu almoço. A ponta do nariz de Caroline, longo
e subtil, começou a vibrar nervosamente, o que acontece todas as vezes que está interessada num
assunto.
- Então? - perguntou.
- Um caso triste. Nada pude fazer. Deve ter morrido enquanto dormia.
- Já sei - disse novamente Caroline.
Desta vez, abespinhei-me.
- Não podes saber - respondi secamente. – Eu próprio não sabia, antes de lá chegar e ainda não
o contei a ninguém. Se a tagarela da Anny sabe, então é porque adivinha!
- Não foi Anny quem contou. Foi o leiteiro, que soube do caso pela cozinheira da casa Ferrars.
Como já disse, não é necessário que minha irmã saia para caçar notícias. Deixa-se ficar em casa
e as notícias chegam até ela.
- De que morreu? Doença do coração?
- Continuou.
- O leiteiro não te informou?
- Perguntei com sarcasmo.
O sarcasmo não a afeta. Toma tudo ao pé da letra.
- Não sabia - explicou.
Cedo ou tarde saberia. Não importava, portanto, que lhe dissesse.
- Morreu por ter ingerido uma dose muito forte de veronal. Tomava-o já há tempos para
combater a insónia. Deve ter tomado muito.'
- Qual! - interrompeu Caroline.
- Foi de propósito. Pensas que acredito nisso?
Estranho! Quando alguém tem uma convicção íntima e secreta que não quer admitir nem para si
mesmo, se acontece que outro a descobre, pode ter-se a certeza de que procurará negá-la
energicamente. Foi por isso que investi contra minha irmã, com os mais vivos protestos.
- Eis que te entregas de novo aos teus despropósitos
- Disse-lhe. - Por que motivo havia Mistress
Ferrars de atentar contra a própria vida? Viúva, ainda regularmente jovem, em boas condições
financeiras, com boa saúde, nada mais tinha a fazer do que viver alegremente e gozar a vida. É
absurdo o que dizes.
- Qual! Tu também deves ter notado que ultima mente estava muito diferente. Essa mudança
datava de há seis meses. Parecia atormentada por um pesadelo.
E acabas de dizer que não podia dormir.
- Qual é então o teu diagnóstico? – perguntei friamente. - Talvez um enredo amoroso que
terminou mal?
Caroline sacudiu a cabeça.
- Remorsos! - Exclamou com ênfase.
- Remorsos?
- Certamente! Não quiseste acreditar-me, quando te dizia que ela envenenara o marido. Agora,
estou mais do que convencida.
- Mas que lógica há em tudo isto? - Observei.
- Se essa mulher tivesse praticado o que dizes, estou certo de que lhe não faltaria o sangue-frio
necessário para gozar os frutos, sem se abandonar a essa fraqueza sentimental que é o remorso.
Caroline sacudiu de novo a cabeça.
- Talvez existam mulheres com tal qualidade, mas Mistress Ferrars não era desse tipo. Só tinha
nervos. Um instinto irresistível arrastou-a a desembaraçar-se do marido, porque era uma dessas
naturezas que não podem suportar qualquer sofrimento; e podes ter a certeza de que a mulher de
um homem como Arthur Ferrars deve ter sofrido, e não pouco!
Concordei.
- E, depois da morte do marido, deve ter vivido na obsessão do crime praticado. Coitada! Não
posso deixar de compadecer-me dela.
Não creio que minha irmã tenha experimentado um sentimento de comiseração pela senhora
Ferrars, enquanto esta vivia. Agora, porém, encontrava-se num mundo em que (verosimilmente)
não se usam as modas e os figurinos de Paris, e Caroline sentia-se disposta a deixar-se vencer
pelos mais brandos sentimentos de piedade e de indulgência.
Disse-lhe que as suas suposições eram absurdas.
E insisti, com mais firmeza, pelo próprio facto de sentir-me forçado a admitir, em parte, o que
ela dizia.
Mas não queria que chegasse a descobrir a verdade, baseando-se, apenas, em hipóteses e em
interrogações; não pretendia, de modo algum, encorajar aquele seu modo de proceder. Tinha a
certeza de que iria expor pela vila as suas conjecturas, e todos ficariam julgando que se baseava
em dados e informes médicos fornecidos por mim. Infelizmente, a vida reserva-nos muitas
amarguras!
- Dizes que as minhas palavras são absurdas- prosseguiu, respondendo às minhas críticas. -
Verás!
Queres apostar em como deixou uma carta em que faz plena confissão?
- Não deixou carta alguma - respondi secamente, sem prever as consequências de semelhante
declaração.
- Ah! Então interessaste-te? Creio que, no fundo, Jacques, pensas como eu. Conheço-te bem;
sabes disfarçar!
- Não podemos afastar a eventualidade de um suicídio! - afirmei em tom conciliador.
- Farão um inquérito?
- É possível. Se puder declarar-me convencido de que o veneno foi ingerido acidentalmente, o
inquérito poderá ser dispensado.
- E estás convencido? - sondou.
Não respondi. Abandonei a mesa.
"O Assassinato de Roger Ackroyd".
Agatha Christie já era conhecida como a “Rainha do Crime”, mas foi com O Assassinato de Roger Ackroyd que ela revolucionou o gênero policial. O livro traz o famoso detetive Hercule Poirot em uma trama repleta de segredos, reviravoltas e um final que marcou a história da literatura.
Agatha Christie
Reflexões Iniciais: O Jogo de Espelhos de Christie
O que torna este capítulo de abertura tão genial?
A Voz do Narrador: O Dr. Sheppard se apresenta como um observador confiável, um médico respeitado na comunidade. Mas será que podemos confiar plenamente em tudo o que ele nos conta? A forma como ele narra os eventos, as suas próprias opiniões e as suas omissões iniciais são peças fundamentais neste quebra-cabeça. Christie nos convida a olhar através de seus olhos, mas já nos alerta, sutilmente, para a complexidade da percepção.
King's Abbot: Um Palco de Ilusões: A vila é descrita como um lugar onde "nada acontece". Essa aparente normalidade é, ironicamente, o terreno perfeito para o crime florescer. Christie nos mostra como a fachada de tranquilidade pode mascarar as mais profundas turbulências humanas.
Os Sussurros do Futuro: Mesmo antes de o crime acontecer, sentimos que algo grave está para se desenrolar. A conversa sobre o chantagista que atormenta Roger Ackroyd, a apreensão em torno da sua futura esposa, os detalhes sobre a rotina dos moradores – tudo isso contribui para um clima de expectativa crescente. Christie nos faz sentir que a paz é frágil.
Este primeiro capítulo é uma obra-prima de setup. Christie não apenas nos introduz aos personagens e ao local, mas também nos engaja em um diálogo silencioso, onde somos convidados a desconfiar, a questionar e a antecipar. O mistério ainda não se manifestou abertamente, mas a Assunção da tragédia paira no ar, pronta para se concretizar.
E agora, caro leitor, a grande questão paira no ar: o que você sentiu ao ler este primeiro capítulo? Quais detalhes chamaram a sua atenção? Já tem alguma teoria sobre o que pode acontecer com Roger Ackroyd? Deixe seus comentários e vamos desvendar juntos esse enigma
Capítulo 2: A Visita ao Dr. Sheppard e o Presságio Sombrio
Neste capítulo, o foco se volta para a perspectiva do Dr. Sheppard, que nos relata detalhes da sua relação com Roger Ackroyd e os preparativos para a chegada da Sra. Ferrars.
A Relação Dr. Sheppard-Ackroyd: O capítulo aprofunda o conhecimento que temos sobre a amizade (ou conveniência?) entre o médico e o Sr. Ackroyd. Quais são os interesses mútuos? O que Ackroyd confidencia ao Dr. Sheppard?
O Chantagista e a Sra. Ferrars: A informação sobre o chantagista que atormentava Roger Ackroyd é um ponto chave. A menção à Sra. Ferrars, sua recente morte e a ligação com o chantagista adicionam camadas de intriga. Christie joga com a nossa curiosidade: como esses elementos se conectam ao futuro de Ackroyd?
O Chamado Urgente: O ponto alto do capítulo é, sem dúvida, o chamado que Roger Ackroyd faz ao Dr. Sheppard, pedindo sua presença em sua casa naquela noite. A urgência no tom, a natureza secreta do pedido – tudo isso eleva a expectativa para o que acontecerá a seguir. O Dr. Sheppard já sente um pressentimento de que algo grave está para acontecer.
Reflexão: Christie é mestra em construir suspense através da antecipação. O Dr. Sheppard, como narrador, nos transmite essa apreensão de forma sutil. Ele sabe que algo importante está por vir, mas não sabe exatamente o quê. Essa incerteza é contagiosa para o leitor.
CAPÍTULO II
O ANUÁRIO DE KING'S ABBOT
Antes de prosseguir no relato do que disse a Caroline e do que Caroline me disse, vale a pena
dedicar algumas palavras ao que chamarei a nossa geografia regional.
O nosso burgo, King's Abbot, é um burgo como qualquer outro. A cidade mais próxima,
Cranchester, acha-se a cerca de doze quilómetros. Temos uma grande estação ferroviária, uma
pequena agência postal e dois estabelecimentos de géneros diversos, que estão em perpétua
rivalidade entre si. Quem é são e robusto demonstra uma acentuada tendência para deixar o
lugarejo, enquanto é novo. Em compensação, King's Abbot tem a fama de hospedar um número
regular de solteironas e militares aposentados. Os nossos recursos e distracções intelectuais
podem ser sintetizados numa só palavra: mexericos.
No lugarejo, só há duas casas de certa importância. Uma é a Quinta do Rei, a outra, é a villa
Fernly, cujo proprietário é Mr. Roger Ackroyd. Este sempre me interessou, pelo facto de parecer
a quinta-essência do fidalgo do campo. Dá a impressão de uma daquelas rubicundas personagens
que, em outros tempos, víamos aparecer na cena, aos primeiros compassos do primeiro acto das
velhas operetas, cujo cenário representava um vilarejo em flor. Geralmente cantavam uma
canção em que falavam de uma viagem a Londres. Hoje, temos as revistas, e o tipo do fidalgote
do campo desapareceu das cenas de opereta.
Verdadeiramente, Mr. Ackroyd não pode ser chamado um gentil-homem do campo. É um
fabricante de rodas para veículos ferroviários, muito feliz nos seus negócios. Tem cerca de
cinquenta anos, rosto corado e modos cordiais. É íntimo do padre, generoso nas subscrições para
os fundos da paróquia – embora seja voz corrente que é extremamente sovina nas suas despesas
pessoais - promove jogos desportivos e auxilia os círculos em prol da juventude e dos institutos
destinados aos ex-combatentes inutilizados para o trabalho. Em resumo, é a alma, a vida do
nosso pacífico povoado de King's Abbot.
Quando Roger Ackroyd era novo, aos vinte e um anos, apaixonara-se por uma linda mulher que
tinha cinco ou seis anos mais do que ele, e acabara por casar-se.
Chamava-se Paton, era viúva e
tinha um filhinho. Os incidentes desse matrimónio foram breves e dolorosos. Para falar com toda
a clareza, Mrs. Ackroyd era alcoólica, e, quatro anos depois do casamento, o torpe vício levou-a
à sepultura. Nos anos que se seguiram, Mr. Ackroyd não mostrou intenção de arriscar-se a novas aventuras
matrimoniais. O filho do primeiro matrimónio de sua esposa tinha sete anos quando a mãe
morreu. Actualmente, tem vinte e cinco. Mr. Ackroyd sempre o considerou como seu próprio
filho e como tal o educou, mas ele tornou-se um malandro e uma fonte de contínuos
aborrecimentos e desgostos para o padrasto. Entretanto no lugarejo, Rudolph Paton conquistou a
simpatia de todos, pois não se pode deixar de reconhecer que é um belo rapaz.
Como já disse, neste pequeno ambiente todos temos tendências para o mexerico. Cada um
notara, desde o princípio, que Mr. Ackroyd e Mrs. Ferrars se compreendiam maravilhosamente.
Depois da morte do marido, a intimidade tornara-se mais acentuada. Eram vistos sempre juntos
nos passeios e pensava-se, naturalmente, que, terminado o luto, Mrs. Ferrars se tornaria a Mrs.
Ackroyd. Era, efectivamente, uma união que parecia acertada, em certo sentido. Mrs. Ackroyd
morrera por intoxicação alcoólica. Mr. Arthur Ferrars fora um bebedor inveterado, durante toda a
vida; nada mais justo do que as duas vítimas dos excessos alheios se consolassem,
reciprocamente, de quanto tinham sofrido por culpa dos respectivos cônjuges.
Os Ferrars tinham vindo morar para a vila havia pouco mais de um ano, mas em torno de Mr.
Ackroyd a bisbilhotice exercitava-se há muito tempo. Durante a adolescência de Rudolph Paton,
uma série de governantas dirigira os negócios domésticos na casa Ackroyd e cada uma fora
observada com olhares suspeitosos, por minha irmã e pelas velhas comadres. Não exagero
dizendo que, durante quinze anos, pelo menos, todos os do lugarejo viveram na convicção de que
veríamos Mr. Ackroyd casar-se com uma das governantas. A última, uma formosa criatura, Mrs.
Russell, dominou plenamente durante cinco anos, dobro do tempo das que a precederam.
Julga-se que se não fosse o aparecimento de Mrs. Ferrars, dificilmente Mr. Ackroyd teria escapado. Salvou-o essa circunstância e outra concomitante; isto é, a repentina volta do Canadá
de uma cunhada viúva, com a filha. Essa senhora, viúva de Camile Ackroyd, o irmão mais novo
e desajuizado de Roger, fixou residência na villa Fernly e conseguiu, no dizer de Caroline,
colocar Mrs. Russell no lugar que lhe competia.
Verdadeiramente, não sei o que se pretende dizer com a expressão colocá-la no seu lugar.
Parece-me uma frase desagradável e antipática - mas sei que Mrs. Russell vive a murmurar e,
esboçando um sorriso azedo e forçado, protesta a sua profunda simpatia por aquela pobre Mrs.
Ackroyd, obrigada a viver da caridade do irmão de seu marido. O pão da esmola é bastante duro,
não é verdade? Sentir-me-ia muito infeliz se não pudesse trabalhar para o meu sustento.
Não sei o que pensava Mrs. Ackroyd da atracção que havia entre o seu cunhado e Mrs. Ferrars,
quando isto se tornou conhecido de todos.
Naturalmente, tinha grande interesse em que ele não
se casasse de novo, mas sempre demonstrara uma amabilidade extrema, para não dizer
exagerada, para com Mrs. Ferrars.
Minha irmã explica que isto nada significa.
Tais são as nossas preocupações diárias em King's Abbot, de alguns anos a esta parte;
examinámos e discutimos a figura de Ackroyd e os seus negócios sob todos os aspectos; e Mrs.
Ferrars completava, maravilhosamente, o quadro das bisbilhotices.
Eis que, de repente, da pacífica discussão sobre o próximo matrimónio, caímos no coração da
tragédia.
Remoendo no pensamento estas e outras circunstâncias, fui fazer as minhas visitas de costume.
Não tinha casos de especial interesse a atender e isto talvez tenha sido um bem, porque os meus
pensamentos não podiam afastar-se da morte misteriosa de Mrs. Ferrars. Ter-se-ia na verdade
suicidado? Neste caso, era impossível que não tivesse deixado uma carta, uma palavra, para dizer
o que resolvera fazer. No decorrer da minha experiência, pude verificar que, quando uma mulher
decide eliminar-se, geralmente não deixa de revelar o estado de alma que a conduz ao passo
fatal. Quase sempre quer que o seu caso faça ruído.
Não se passara uma semana depois da última vez que a vira. O seu comportamento fora normal,
em vista de... enfim, em vista de tudo.
Mas, repentinamente, lembrei-me de que a vira na véspera, embora lhe não tivesse falado.
Andava em passeio com Rudolph Paton, o que me surpreendeu, porque não tinha a mínima ideia
de que ele se encontrasse em King's Abbot. Na realidade, julgava que tivesse rompido,
definitivamente, com o padrasto. Havia seis meses que não aparecia por estas paragens. Os dois
caminhavam ao lado um do outro, olhando-se gravemente.
Creio poder dizer, com segurança, que naquele momento tive um vislumbre do que iria
acontecer. Nada de positivo, apenas um vago, indefinido pressentimento. A lembrança daquele
diálogo tão grave da véspera, entre Rudolph e Mrs. Ferrars, causou-me uma impressão
desagradável.
Estava a pensar nisto, quando dei de rosto com Roger Ackroyd.
- Doutor! - exclamou. - Preciso muito de si! É uma coisa terrível!
- Então, já sabe?
Respondeu que sim. A notícia atingira-o em cheio, como pude verificar. O rosto largo e feliz
parecia envelhecido, e o jovial, exuberante Ackroyd não parecia o mesmo.
- Oh! Há outra coisa ainda pior que o senhor não sabe! - disse baixinho. - Ouça, doutor, preciso
falar-lhe. Pode acompanhar-me neste momento?
-Não posso. Tenho de visitar três doentes e devo voltar ao meio-dia para o meu consultório.
- Então, venha à tarde; não, é melhor que vá jantar comigo, à noite, as sete e meia. Serve?
- Sim, irei. Mas, que aconteceu? Trata-se de Rudolph?
Fitou-me atónito, como se não conseguisse compreender. Comecei a perceber que devia ter
acontecido alguma coisa de extremamente grave. Nunca o vira tão perturbado. - Rudolph - disse vagamente. - Oh! Não, não é Rudolph. Rudolph está em Londres. Diabo!
Vem ali Miss Ganett. Não quero falar-lhe sobre este horrível assunto. Ver-nos-emos à noite,
doutor. As sete e meia, está combinado?
Fiz-lhe um sinal de assentimento e ele afastou-se rapidamente, deixando-me perplexo. Rudolph
em Londres? Mas se, no dia anterior, estava em King's Abbot! Podia ter voltado à cidade, na
tarde daquele dia ou de manhã cedo, mas o modo com que Ackroyd acolhera a minha pergunta
deixara-me uma impressão bem diversa. Falara como se Rudolph se encontrasse ausente há
muito.
Não tive tempo de perder-me em conjecturas. A Miss Ganett já me assediara sedenta de notícias. Tem todas as característicás de minha irmã, mas falta--lhe aquela habilidade infalível para tirar
conclusões, que confere certa grandiosidade às manobras de Caroline. Ansiosa e cheia de
curiosidade, abordou-me:
- Que desgraça aconteceu à pobre Mistress Ferrars! Muita gente afirmava que há anos se
entregava a estupefacientes. É sempre mau quando o povo começa a murmurar! Entretanto, no
meio desses reparos, devia de haver um pouco de verdade! Não há fumo sem fogo! Dizia-se,
também, que Mister Ackroyd soubera, e que, por isso, rompera o noivado; pois era inegável que
existia um noivado...
Ela mesmo, pessoalmente, tivera provas incontestáveis. Naturalmente, eu devia saber tudo isto;
que é que não sabem os médicos? Mas nunca dizem nada.
Tagarelava cravando-me no rosto os olhos redondos e inquiridores, para observar o efeito que as
suas palavras produziam. Felizmente, a longa convivência com Caroline já me habituou a manter
uma atitude impassível e a rebater com golpes breves e certeiros.
Disse a Miss Ganett que fazia muito bem em abandonar os mexericos e a malevolência do
povinho. Um contra-ataque elegante. Efectivamente, ficou um pouco embaraçada e, antes que
lhe fosse possível encontrar uma resposta, afastei-me.
Voltei para casa pensativo. Alguns doentes esperavam-me no consultório.
Tinha atendido o último, pelo menos assim o julguei, e já me preparava para descer um momento
ao jardim, antes de sentar-me à mesa, quando vi outro cliente na sala de espera. Não pude ocultar
um momento de surpresa.
Não saberia como explicar esse meu gesto de espanto, a não ser que se queira admitir que, na
figura de Mrs. Russell haja alguma coisa que lembre o bronze ou o ferro fundido, qualquer coisa,
em resumo, superior às comuns fraquezas da carne. A governanta de Mr. Ackroyd é uma mulher alta, bem formada, mas, em conjunto, tem um
aspecto nada simpático. O olhar sombrio, os lábios sempre apertados, fazem-me pensar que, se
eu fosse uma criadinha dependente dela, fugiria até o fim do Mundo, logo que se aproximasse de
mim.
- Bom dia, doutor - disse. - Quer ter a gentileza de examinar-me o joelho?
Observei-lhe atentamente o joelho, mas, para dizer a verdade, depois do primeiro exame, sabia
menos do que antes. Mrs. Russell falou-me de dores vagas e as suas palavras eram tão pouco
convincentes que, se se tratasse de outra pessoa eu teria suspeitado de fingimento. Por um
momento, passou-me pela mente a ideia de que tivesse inventado, deliberadamente, aquele mal
no joelho para me fazer falar a respeito da morte de Mrs. Ferrars; mas logo me apercebi de que,
neste ponto pelo menos, a estava julgando mal. Uma rápida referência à tragédia e nada mais.
Entretanto, parecia disposta a deixar-se ficar de conversa.
- Bem, muito obrigada pela pomada, doutor- disse finalmente. - Não que acredite que ela possa
produzir efeito.
Eu também era da mesma opinião, mas, por dever profissional, protestei: Em todo o caso, se
não fizer bem, também não fará mal. Não se deve desacreditar a profissão.
- Não confio em nenhum desses medicamentos - disse Mrs. Russell, lançando um olhar de
desprezo para a fila dos frascos de medicamentos. - Alguns remédios são muito prejudiciais.
Veja, por exemplo, a cocaína.
- Realmente, quanto a essa...
- Na boa sociedade, é largamente usada.
- Certamente, conhece a boa sociedade melhor do que eu. - Nem sequer tentei contradizê-la.
- Diga-me uma coisa, doutor - continuou. - Suponhamos que o senhor é um cocainômano.
Poderiam curá-lo?
Não se pode responder a uma pergunta dessa espécie, assim do pé para a mão. Dei-lhe uma
explicação a propósito, que ela ouviu com viva atenção. As minhas suspeitas de que quisesse
sondar-me, a respeito de Mrs. Ferrars, começaram a renascer.
- Agora o veronal, por exemplo... - prossegui...
Estranho! Não parecia interessar-se pelo veronal, mudou de assunto e perguntou-me se era
verdade que existem venenos tão misteriosos que desafiam qualquer investigação. - Ora - retorqui-lhe. - Vê-se que é uma leitora de romances policiais.
Não negou.
- O enredo do romance - continuei - gira em torno da possibilidade de existir um veneno
raríssimo, talvez proveniente da América do Sul, de modo que ninguém o descubra; uma
substância venenosa com a qual os selvagens comummente envenenam as flechas. A morte é
instantânea e toda a nossa ciência europeia é impotente para desvendar-lhe o mistério. Aposto
que a senhora quer falar deste veneno, não é verdade?
- Precisamente. Mas existe, então, uma substância dessa espécie?
Sacudi a cabeça, negativamente.
- Julgo que não existe. Entretanto há o curare. - Falei largamente sobre o curare, mas
pareceu-me que perdera novamente o interesse pela explicação. Perguntou se tinha venenos no
meu armário e, quando lhe disse que não, pareceu-me ter diminuído na sua estima.
Finalmente, Mrs. Russell disse que precisava de voltar para casa e acompanhei-a até à porta do
consultório, precisamente no momento em que soava a sineta para o almoço do meio-dia. Nunca julguei que aquela mulher fosse uma apaixonada leitora de romances policiais.
Agrada-me imaginá-la a sair do seu quarto, a fim de ralhar com alguma criada briguenta para, em
seguida, voltar a ler em sossego O Mistério da Sétima Morte ou algum outro livro do mesmo
género.
"O Assassinato de Roger Ackroyd".
Se você gosta de literatura policial e ainda não leu Agatha Christie, O Assassinato de Roger Ackroyd é uma excelente porta de entrada. Uma trama brilhante, um detetive inesquecível e um final que se tornou referência no gênero.
E você, o que achou das revelações destes capítulos? A atitude de Roger Ackroyd te intrigou? Deixe suas impressões nos comentários!
Nossa, para uma primeira publicação e começar por uma das mais ricas obra de Ágatha, é começar com o pé direito. Assim, Te desejo sucesso no seu mais novo blogger de literatura, ademais até me despertou curiosidade para ler essa rica obra de Agatha Christie. Obrigada!
ResponderExcluirObrigado pelo carinho! lindas palavras.
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